Financiamento pela internet ganha força
2 de October de 2017

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O senso de oportunidade guiou o administrador Fernando Saddi, CEO e fundador da Easy Carros. No auge da crise hídrica, em janeiro de 2015, Saddi criou um aplicativo de lavagem a seco de carros em domicílio, na cidade de São Paulo. Seis meses depois, o negócio recebeu aporte de R$ 300 mil pela plataforma Broota, com recursos levantados em 24 horas. Em julho do ano passado, a empresa captou mais R$ 350 mil, quantia que representou 30% da rodada total, já que investidores externos também participaram dos aportes.

Assim como a Easy Carros, há um movimento crescente de startups em busca de dinheiro para financiar o negócio. Na outra ponta, uma alternativa que começa a ganhar força no Brasil é o chamado equity-crowdfunding, financiamento coletivo de empresas pela internet. Apesar de existir há alguns anos, esse modelo de captação de recursos foi impulsionado em julho, quando a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tornou mais claras as regras para esse mercado.

Pela regulamentação da autarquia, empresas com receita de até R$ 10 milhões por ano podem fazer ofertas na internet, com dispensa automática de registro na CVM, em plataformas autorizadas a operar com equity-crowdfunding. Hoje, existem quatro nesse modelo: Broota, EqSeed, StartMeUp e EuSocio. Elas conectam empresas a pessoas físicas dispostas a aplicar em uma startup, com horizonte de investimento de médio e longo prazo.

O volume financeiro movimentado por esse tipo de operação ainda é baixo, mas as expectativas são positivas, a partir da instrução da CVM. “Para uma startup, que tem uma equipe enxuta, é desafiador captar recurso”, destaca Greg Kelly, sócio-fundador da EqSeed.

Em geral, empreendedores conseguem o primeiro aporte com investidore-sanjo para dar a largada no negócio, mas depois têm dificuldade para levantar mais dinheiro. “O grande ‘vale da morte’ no Brasil está no capital semente, quando a empresa já teve a primeira rodada com anjos, mas não tem atração suficiente para receber investimento de um fundo de venture capital”, diz Ricardo Politi, co-fundador da Broota.

Criada em 2014, a Broota já teve 50 empresas investidas, num total de R$ 15 milhões, incluindo captações públicas e captações privadas (restritas para investidores que o empreendedor seleciona). No caso da Easy Carros, os investimentos ajudaram a expandir a atuação para mais de 60 cidades no país. “Entre os planos está a busca de novos mercados na América do Sul”, conta Fernando Saddi.

Com faturamento previsto entre R$ 27 e R$ 30 milhões para este ano, a startup também assinou recentemente contrato com um fundo de investimento do Vale do Silício. O valor, por enquanto, não foi revelado. Atualmente, os clientes são majoritariamente frotas de grandes empresas que, pelo aplicativo, selecionam os serviços e acompanham em tempo real.

Já a EqSeed contabilizou três captações em 2016, fechou mais três neste ano e prevê atingir um total de nove operações até dezembro. Em uma rodada que durou três meses, a Cotexo – marketplace de compra e venda de autopeças – conseguiu um investimento de R$ 600 mil pela plataforma, neste mês. “O momento é de investir para dobrar a equipe, no marketing e em tecnologia”, afirma o especialista em TI Marcelo Galli, CEO da empresa.

Em funcionamento desde 2014, o negócio conecta vendedores e compradores, principalmente oficinas de pequeno porte, em mais de 100 cidades em cinco Estados brasileiros. Para este ano, a Cotexo espera faturar R$ 940 mil, com previsão de alcançar R$ 1 milhão em 2018, segundo Galli.

Fundada em julho do ano passado, a startup curitibana Contraktor atua no setor “legal tech”, com uma plataforma de gestão de contratos em nuvem. Focada no setor comercial e na área jurídica, atende clientes de médio porte, como consultorias, imobiliárias, associações e holdings de empresas. “Senti na pele o fardo da burocracia de contratos. Daí a ideia de criar um negócio para desburocratizar com eficiência, ganho de tempo e redução de custos”, conta o advogado Bruno Doneda, um dos quatro sócios da Contraktor.

A largada foi dada com R$ 110 mil vindos de investidores-anjo e, em julho, a empresa fechou captação de R$ 450 mil pela EqSeed em uma rodada de 56 dias. A startup gerencia 100 milhões de contratos e quer chegar a 1 bilhão em 2018.

Pelas regras, pequenos podem aplicar até R$ 10 mil

Enquanto para as startups o equity-crowdfunding é uma alternativa de captação de recursos, para o investidor pessoa física esse tipo de aplicação pode servir como diversificação do patrimônio. As características são semelhantes a comprar papéis de empresas negociados na bolsa: investimento de alto risco e recomendado para objetivos de longo prazo. “Com R$ 1 mil, qualquer pessoa pode virar sócio de startups. Mas, uma vez que investiu, não é possível se desfazer da participação acionária adquirida, como vender uma ação na bolsa”, explica Ricardo Politi, co-fundador da plataforma de equitycrowdfunding Broota.

O investidor só receberá de volta o dinheiro aplicado, corrigido pelo lucro ou prejuízo, quando a empresa for vendida (total ou parcialmente), observa Andrea Minardi, professora de economia do Insper. Caso o negócio não dê certo, quem fez aportes também arca com o resultado negativo. “Por mais que um investimento em uma startup possa trazer altos retornos, o risco de perder parte ou todo o capital investido é muito grande. Diversificar a aplicação em mais de uma empresa diminui esse risco, embora não o elimine.”

Para quem pretende ingressar nesse mercado, a indicação é destinar uma fatia do patrimônio que não comprometa a capacidade financeira. A própria CVM definiu a quantia máxima de R$ 10 mil por ano para aplicações de pequenos investidores, considerando os aportes realizados em todas as plataformas que operam com equity-crowdfunding.

“Esse limite é maior apenas para investidores ‘qualificados’ [com investimentos financeiros acima de R$ 1 milhão], assim como para investidores com renda bruta anual ou montante de aplicações financeiras superior a R$ 100 mil”, destaca a advogada especialista em direito societário Beatriz Trovo Pontes de Miranda, sócia do escritório Sampaio Ferraz Advogados.

Avaliar o plano de negócios da empresa, mercado potencial e os empreendedores que estão à frente da startup são cuidados importantes antes de participar de uma rodada de captação, diz Andrea. A professora recomenda também checar se outros investidores já colocaram ou estão colocando dinheiro na empresa. “Muitas vezes esses investidores fizeram aporte em estágio inicial e, caso tenham sido bem-sucedidos, passam uma segurança a mais de que a startup tem boas perspectivas.”

Greg Kelly, sócio-fundador da plataforma EqSeed, ressalta que os materiais publicitários das ofertas públicas têm todas as informações necessárias para o investidor tomar a decisão de fazer ou não o aporte. “A pessoa também pode entrar em contato com os sócio-fundadores das empresas”, afirma.

Embora a CVM fiscalize as plataformas, vale pesquisar sobre os negócios que receberam captação por meio dos sites, diz Andrea. E mesmo após a confirmação do investimento, o investidor tem a possibilidade de desistir. “A instrução CVM 588 garante ao investidor um período de desistência de, no mínimo, sete dias contados a partir da confirmação do investimento, sem a aplicação de multas ou penalidades”, ressalta Beatriz.

Fonte: http://www.valor.com.br/financas/5137940/pelas-regras-pequenos-podem-aplicar-ate-r-10-mil

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